Apocalipse e o desafio dos métodos de interpretação 1/2

clock_work-wallpaper-1280x960O Apocalipse tem sido estudado de acordo com quatro metodologias de interpretação: preterismo, futurismo, idealismo e historicismo, ou uma combinação delas. Analisemos cada uma a seguir:

Preterismo

Os preteristas acreditam que o Apocalipse se restringe ao primeiro século. Dessa forma, as perseguições imperiais romanas seriam o único objeto de preocupação do autor do livro. Nas notas da Bíblia de Jerusalém, por exemplo, Babilônia representa a “Roma idólatra”, e as sete cabeças de Apocalipse 17 representam sete imperadores romanos.[¹] No preterismo, o Apocalipse se distancia tanto da história cristã quanto do leitor atual.

Futurismo

Por sua vez, os futuristas têm no Apocalipse um livro essencialmente escatológico, tratando dos eventos mais iminentes à segunda vinda de Cristo.[²] Esse método de interpretação ganhou gradativamente a adesão de protestantes, evangélicos e de pentecostais, após a propagação do dispensacionalismo desde o século 19.

Segundo essa doutrina recente, Deus salva a humanidade de formas diferentes nas diversas “dispensações” (do grego, oikonomia, literalmente, “lei/administração da casa”, 1 Coríntios 9:17), referindo-se a diferentes formas de Deus atuar no mundo. Em cada dispensação o Senhor se revela de uma forma e a humanidade é testada em sua resposta a essa ação. Em cada dispensação, a humanidade falha, e Deus inicia um novo ciclo.

No dispensacionalismo há uma dicotomia entre Israel e a igreja. A igreja surge como um parêntese em relação ao plano divino para Israel – um tipo de “plano B”. Na segunda vinda de Cristo (invisível para o mundo), ocorre o chamado “arrebatamento secreto” dos cristãos, enquanto os judeus e os demais permanecem na terra e passam por sete anos de tribulação, durante os quais ainda são testados, até que o reino de Deus seja estabelecido definitivamente. A doutrina do arrebatamento secreto foi criada por John Nelson Darby por volta de 1830 e se difundiu no século 20 graças à Scofield Reference Bible, lançada em 1909. Essa maneira de interpretar o Apocalipse é o mote da série de livros e filmes Ninguém será Deixado para Trás (Left Behind), de Tim LaHaye e Hal Lindsey.

Porém, é importante lembrar que “todo dispensacionalista é futurista, mas nem todo futurista é dispensacionalista”.[³] Os futuristas críticos do dispensacionalismo creem no milenarismo clássico, segundo o qual não há dispensações nem distinção entre Israel e a igreja cristã em relação aos eventos finais.[4] Porém, de uma forma ou de outra, no futurismo, a “principal objeção… é que remove do livro qualquer contexto histórico” [5] , e “o Apocalipse se torna relevante apenas para a última geração do tempo do fim”.[6]

Frutos da Contrarreforma

Muitos nem desconfiam que tanto o futurismo quanto o preterismo se originaram na Contrarreforma, por meio dos jesuítas espanhóis Luis de Alcázar (1554-1613) e Francisco Ribera (1537-1591). Em seu livro Vestigatio arcani sensus in Apocalypsi, publicado postumamente em 1614, Alcázar defendia que o anticristo havia sido um imperador romano que governou no primeiro século. Ribera propôs em seu comentário bíblico sobre o Apocalipse, intitulado Sacrum Beati Ioannis Apostoli, & Evangelistiae Apocalypsin Commentarij, de 1585, que o anticristo seria um judeu que reinaria em Jerusalém num futuro distante.[7] Para ele, somente os primeiros capítulos do Apocalipse lidavam com a Roma antiga, enquanto os demais seriam puramente escatológicos, assim como os futuristas afirmam atualmente.

Essas maneiras de se interpretar foram construídas para se combater os pregadores da Reforma, que identificavam o papado como o anticristo profetizado na Bíblia.[8] Segundo o apóstolo Paulo, um poder se levantaria ainda no futuro a partir de seu tempo, o qual se tornaria “objeto de culto, a ponto de assentar-se no santuário de Deus, ostentando-se como se fosse o próprio Deus” (2 Tessalonicenses 2:4). Esse poder surgiria de um processo de apostasia do cristianismo (v. 3) e só seria destruído na volta de Jesus (v. 8). Nos ensinos de Jesus, este seria o mesmo poder blasfemo e perseguidor predito por Daniel (Mateus 24:15; Daniel 7:24-26).

Com o futurismo e o preterismo da Contrarreforma, as atrocidades da igreja romana antes, durante e depois da Idade Média escapam ilesas na interpretação de Daniel e do Apocalipse. Enquanto o futurismo foi adotado pelo mundo evangélico, o preterismo foi abraçado pelas igrejas e universidades protestantes liberais, fazendo-os perder de vista o passado e o que está escrito sobre o futuro (Apocalipse 13:3, 5-8).

Diogo Cavalcanti

>>Leia aqui sobre idealismo e historicismo<<

[¹] Bíblia de Jerusalém. Nova edição revista e ampliada. São Paulo: Paulus, 2002, p. 2159.

[²] “Futurist interpretation”. Bible Study Tools. Disponível em: biblestudytools.com
[³] Ibid.
[4]Ibid.
[5]Russel N. Champlin, O Novo Testamento Interpretado Versículo por Versículo. São Paulo: Editora Hagnos, 2002, vol. 6, p. 362.
[6] Ranko Stefanovic. Revelation of Jesus Christ. Berrien Springs, MI:Andrews University Press, 2a edição, 2009, p. 12.
[7] Francis D. Nichol (ed.). Comentario Biblico Adventista Del Septimo Día. Buenos Aires: Associacion Casa Editora Sudamericana, 1996, p. 109.
[8] Ibid.

Fonte biblia.com.br…

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